De verde e branco vem a Imperatriz Cubango para sua estreia na LIESV

A agremiação virtual montada em homenagem à duas escolas reais do coração do presidente Marcus Lopes (Imperatriz Leopoldinense e Acadêmicos do Cubango), vem numa emocionante homenagem à verde e branco de Niterói em sua estreia no carnaval virtual.

Conversamos sobre a expectativa da estréia com o presidente Marcus, vejam:

1 – Porque a escola escolheu esse enredo:

“Pra ser Cubango não se conta até três!”, nasceu da necessidade de exaltar ancestralidade, a história e a espiritualidade dessa grande agremiação do carnaval, a Academia de Niterói. Percebemos que poucos amantes do carnaval que a vêem desfilar na Marquês de Sapucaí têm conhecimento de suas lindas e brilhantes origens niteroienses.

2 – Como será desenvolvido na passarela João Jorge 30?

Ainda estamos definindo junto a equipe que está se formando a disposição e o número de elementos visuais que traremos para o desfile. No entanto, supresas e lindas homenagens serão feitas, “Abrindo o portão imaginário” que inaugurará o nosso desfile. Podemos adiantar que o projeto é trazer o máximo de elementos visuais disponíveis no regulamento.

3 – Qual a motivação da escola em busca do título?

A motivação é total, pois pretendemos trazer mais um título para Niterói. Sentimos que o enredo tem a força e o visual suficientes para que a Imperatriz Cubango possa desfilar no grupo especial já em 2021.

4 – O que os espectadores podem esperar da escola em 2020?

Espectadores e amantes do carnaval virtual, vocês podem esperar um desfile valente, alegre e altamente carregado da espiritualidade e da musicalidade africanas, trazendo personalidades próprias do contexto cubanguense e outras bastante conhecidas no mundo do samba e que também fizeram parte dessa linda escola de samba de Niterói. Será um afro requintado e com raízes muito fortes.

5 – Como será feita a escolha do samba?

Neste primeiro ano, encomendaremos a composição do nosso samba enredo.

6 – Considerações finais.

Agradecemos a Liga pela atenção e suporte dado e aos amigos que tornaram esse sonho possível. A Imperatriz Cubango será uma escola que SEMPRE exaltará as raízes negras do nosso Brasil, em seus desfiles. Está é a nossa identidade: uma escola que unirá a valentia da Academia de Niterói, com o garbo da Imperatriz da Leopoldina. Esperem de nós grandes grandes enredos e grandes sambas. A negritude corre em nossas veias e nos torna fortes para marcar a nossa própria história.

Agora leiam a sinopse :

Enredo: Pra ser Cubango não se conta até três!
por Elidio Fernandes Junior

HISTÓRICO DO ENREDO
Aconteceu…
E novamente estou aí
Sou a Cubango
Alegre e solta na Sapucaí
Não tem tempo ruim
E qualquer hora é hora
Eu vou cantar e sambar agora

Sou a verde-e-branco lá de Niterói
Tenho as cores da esperança e da paz n’uma só voz
Viva eu…sim pra alegria de vocês
Pra ser Cubango não se conta até três
(Samba Exaltação – Acadêmicos do Cubango)

Viva eu, sim…
O som do atabaque ecoa pelo ar. É como que um chamamento para toda a comunidade, que desce o morro em romaria para chegar à quadra da Academia de Niterói: o Grêmio Recreativo Escola de Samba Acadêmicos do Cubango. De sua maioria negra, fato que revela a raiz histórica e cultural desse povo, a comunidade parece caminhar no ritmo do batuque. Batuque de encantaria que evoca as memórias ancestrais contidas nas cabaças deste velho aqui.
…tum-tum-tum…
África continente-berço das histórias perpetuadas pela oralidade. Viemos de lá, do Reino do Congo, grande Império Negro que tinha o povo basicamente bantu como esteio. Gente de fibra, guerreiros e que adoravam grandes cortejos cheios de canto e dança, principalmente pro Rei Manicongo.
… Tum-tum-tum…
Poucos sabem, mas Niterói foi um grande lugar de desembarque pirata de pretos que, vejam só, trouxeram toda sua memória e sabedoria pra cá… Ouvi muito falar desses e de outros causos… Causos de negros que fugiam e se entocavam em ‘terras escondidas’. E cultuavam seus velhos… E aqui estou eu, um velho contador de causos, ouvindo o batucar lá de baixo trazendo a magia ancestral para todo esse povo…
Esse velho griô aqui tá falando de uma semente que com o tempo fez brotar uma linda flor: Nossa Cubango, escola de samba que está sempre cultuando toda a sua história e herança africana.
…Tum-tum…
Logo na entrada da quadra nosso padroeiro nos dá sua benção. Salve São Lázaro, valei-nos nosso Babalotin! Lá em cima está começando nosso samba-louvação!
Me contaram que Obaluaê era um menino muito, mas muito desobediente e um dia pisou numas flores brancas mesmo com sua mãe dizendo pra não fazer isso. E seu corpo foi sendo coberto de lindas e pequenas flores brancas que, bem devagarinho, foram virando terríveis feridas. Para esconder sua aparência, Ogum cobriu todo seu corpo com palhas. E contam os antigos que num xirê bastante animado, quando ele estava bem no meio do barracão, Iansã soprou e fez toda a palha se levantar. E foi nesse momento de encanto e ventania que as feridas de Obaluaê viraram uma chuva de pipocas brancas que pularam para o alto…
É daí que vem a palha que forra nosso altar e a pipoca que nos livra dos nossos males. Atotô…
Tum-tum… Tum-Tum… Tum-tum…
Contando esses causos e lembrando e vendo a entrada da nossa quadra, o coração desse velho aqui bate mais forte. Chegar na quadra e reverenciar nossa história e nossos santos de proteção nos dá a certeza de que estamos em nosso lugar de negritude.
Tum-tum… Tum-Tum… Tum-tum…
E subindo a escadaria até o nosso salão principal, vejo nossa porta-bandeira protegida e reverenciada pelo jovem mestre sala riscando o chão. E a cada girar, com o pavilhão aberto, a cada bandeirada, o vento que sai dos panos trazem no ar a força dos ancestrais que não estão mais entre nós, mas que sim, aqui estão!
Pra ser Cubango, não se conta até três…

Não tem tempo ruim e qualquer hora é hora

O samba estava correndo solto na quadra…
Tum…Tum-tum… Tum… Tum-tum… Tum… Tum-tum…
E fui me sentar no meu cantinho de sempre. Esse velho preto aqui não tem a disposição dessa molecada…me acomodei com a ajuda de duas cabrochas…e comecei a falar um pouco de nossa escola…
Tum-tum… Tum-Tum… Tum-tum…
Tudo começou lá pelos Anos de 1959 quando a Academia de Niterói foi fundada. Tinha o Império do Sertão que acabou se silenciando…já não se ouviram seus abatabaques… E foi então que alguns bambas dos morros São Luiz, Mangueirinha, Abacaxi e Serrão, dentre eles Ney Ferreira e Carlinhos Manga-Espada, criaram a Cubango com uma identidade muito forte que se mantém até hoje: valorização de sua história e origens, de sua comunidade, seu chão… Hoje ouço muito a coisa do “lugar de fala”… acho que é isso. A Cubango sempre defendeu em seus desfiles a mestiçagem brasileira e tudo que essa gente construiu com muita luta.
E já começamos ganhando quatro vezes seguidas! De 60 a 64 só deu nosso pavilhão girando no lugar mais alto do carnaval daqui. O carnaval e a negritude foram as marcas das nossas primeiras sequências de títulos. Cantamos o Rei Momo, a liberdade da negrada, o maestro Carlos Gomes e as riquezas verdes das esmeraldas… Um pouquinho depois, mais títulos. Desta vez com o Reizado, a dançada e Zé Pereira… Em onze carnavais, sete títulos. E a Academia Cubango foi se tornando um Grêmio Recreativo Escola de Samba que já nasceu nobre como nosso Manicongo. É a nossa raiz ancestral correndo nas veias…
Tum-tum… Tum-Tum… Tum-tum…
É… muita gente que samba hoje aqui não sabe disso tudo… A gigante Cubango nasceu e cresceu forte. Vocês sabiam que sempre disputamos títulos com grandes desfiles? Pois é… depois vieram 5 títulos em dez carnavais! E cantamos um Rei Congo no Sabará, o folclore nordestino, Afoxé… uma linda história de quem desfila pelas ruas louvando os orixás…
Afoxé lorin, é lorin
Afoxé loriô, é loriô

…Tum-tum…
Mas deixamos Niterói para competir no carnaval do Rio de Janeiro. Carregamos toda nossa história e atravessamos a ponte em busca de mais títulos e reconhecimento. Sobrevivência! Só que as dificuldades foram muitas… E os títulos rarearam… Questionaram nossa grandiosidade… Mas o medo nunca nos alcançou, é no deserto que sempre nos encontramos com nossa história… Rogai por nós, meu São Lázaro!

Tum-tum… Tum-Tum… Tum-tum…
Ah… certo dia um poeta me contou que a cada ano, na travessia da ponte para o nosso desfile, a Rainha do mar nos conduz de mãos dadas. Travessia amparada pelo bailar das marolas da Guanabara, com aquele som doce e suave de seu cantar para a nação Cubango… Girando o mundo, virando e revirando, cantamos de tudo, caímos, tentamos subir e caímos… Se choramos, sabemos que nossas lágrimas regaram o verde de nosso pavilhão e a cada ano a esperança foi renascendo no verde de nossa bandeira. Somos como haste fina, essas novas brisas da travessia nos fazem vergar. Mas nada, ninguém e em tempo algum essa haste-tronco de árvore cubanguense, de raízes profundas, se quebrará! Não, nunca andamos sós: valei-nos nosso Babalotin! Não nascemos para o breu. E é sempre para onde vamos, que nosso Santo nos lguia: Atotô…
Sempre há um renascer. Foram muitos versos cantados nessa longa história de vitórias e derrotas. Foram versos, versos e mais versos que em todo o tempo, Tempo Rei, brotaram de nossos poetas da velha Academia sob a luz que sempre inspirou Coutinho, Bentinho, Delmir Oliveira, Heraldo Faria, Flavinho Machado, Jair e muitos outros…
Tum-tum… Tum-Tum… Tum-tum…
Mas reencontramos nosso caminho de grandes desfiles em 2009. O velho fica feliz em ter estado lá para cantar mais uma vez nosso samba-amuleto: Ofi la laê, Olê loá

O adivinho joga búzios com presteza
Desvendando o futuro e o que ficou pra trás
Tem as cortes dos Reis Lobossi e Obá Alaké
Xangô em seu camelo sagrado
Esta é a história do afoxé
Que hoje desfila pelas ruas em rituais
Louvando os orixás

É isso… Somos a verde-e-branco lá de Niterói para a alegria de vocês porque pra ser Cubango Não se conta até três…

Eu vou cantar e sambar agora…
Tum…Tum-tum… Tum… Tum-tum… Tum… Tum-tum…
Como gosto quando começa a apresentação de nossos hinos… O velho se emociona com tamanha beleza que revira as memórias…
Tum…Tum-tum… Tum… Tum-tum… Tum… Tum-tum…
Como é lindo ver as baianas rodando ao som do nosso hino mágico…Rodam em consagração a toda nossa fé e religiosidade, seus colares e alacas… brancas com detalhes em estamparia afro em verde e preto. Baiana que acolhe a todos nós. E ouvimos seu cantar suave e vibrante entoado aquele refrão…
O Jurê aia lá é mamajo é mamajo
O Jurê aia lá é mamajo é mamajo

Aquelas vozes me lembravam os tempos das pastoras, rainhas, cantando e contando porque Oxalá usa Ekodidé… Meus olhos ficam marejados diante desta visão… E chega o povo que bota para quebrar no samba, passistas em traje de gala dizendo a que vieram, liberando um furacão de alegria nesse nosso mundo que é de puro encanto e fantasia… Parece que estão cantando pra esse bom griô que tantos causos rememorou, sambando que há nos contos um ponto…

Lá vem Cubango, canta meu povo
Lá vem raiz
Juntando os pontos, dos nossos contos
Fazendo um sonho tão feliz

E o centro da quadra foi ficando cada vez mais verde e branco… Nossos compositores, artistas da pena que criam ano a ano hinos lindos enriquecendo cada vez mais a nossa galeria… Começaram a formar uma roda… Foi quando começaram a cantar as maravilhas de África, aquele exuberante paraíso negro.

Com inteligência e imaginação
Desperta o poder de criação
A beleza do artesanato
É o retrato que fascina a multidão
É arte, é cultura e poesia
Obras desta raça milenar
Multicolorindo o dia-a-dia
A gente não se cansa de exaltar

Ilu-ayê mãe África
Negra forma de viver
Ago-iê mãe África
Hoje a CUBANGO é você

Parece que estou vendo um cortejo ancestral se formando, mas desta vez em louvor ao nosso pavilhão… E agora preciso me levantar: chegou a hora da Velha Guarda entrar na roda. Somos nós, a realeza africana de Niterói. É, negro mantem a esperança, é a essência africana a lutar…

Vai meu samba cantar em uma só voz
Exaltar a glória dos nossos heróis
Não foi em vão nossa fé
Sou carregado de axé, axé
Somos uma corrente de irmãos
Orgulho de uma negra nação
Ouçam a nossa oração

Ô-ô-ô, o canto do negro ecoou
A liberdade já raiou
Ressoa em Niterói, cidade que eu amo
Sou realeza, sou quilombola Cubango

Ah… E lá vem eles, garbosos, conduzindo a essência de nossa história. A Roda-raiz com Baianas, Passistas, Compositores e Velha Guarda, embalados pela nossa Bateria Ritmo Folgado e nosso intérprete levando nossa história em samba reverencia e é reverenciada pelos guardiões de nosso pavilhão, que tem alma, sim… E bailam, e giram… Orgulho, firmeza, realeza e simpatia. Carregam toda a emoção que nos toma de assalto. E nos rendemos a tanta beleza. É hora de festejar! Festejar a fé que todos nós carregamos. Meu Igba Cubango é amuleto, proteção e amor!

Vou buscar pra mim
A força do seu axé

Menino babalotim no sagrado Afoxé!

Aos pé do morro fiz o meu terreiro
Onde o padroeiro me protege em seu altar
Atotô, eu bato cabeça pra Omulu
Nesse chão tem pipoca pro santo
Oferendas do meu mundo verde e branco

E beijar nossa bandeira, símbolo maior de nosso amor em verde e brando, faz esse velho aqui fraquejar, bambear e os olhos mareja até as lágrimas rolarem…

E o samba não para. A roda se desfaz, mas o samba não para jamais. Ele é alimento e voz de toda uma comunidade muitas vezes esquecida, ainda em ‘terras escondidas’.
Somos força!
Somos história!
Somos raiz…Resistência!

Mais um dia mágico para a cabaça das memórias do nosso Preto-Velho. Um baú de histórias e emoções que, quem conhece é tocado e aprende de forma definitiva:

Pra ser Cubango não se conta até três…

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