“Tupã Tenondé” é o enredo da Gaviões Imperiais. Leia a sinopse!

Indo para seu 12º carnaval virtual, a Gaviões Imperiais prepara um enredo indígena que vai abordar lendas que compõe a cosmogonia Tupi Guarani. Leo Moreira, presidente da escola e Sérgio Junior, carnavalesco e enredista, falaram sobre o enredo e a expectativa para 2018:

“Tupã Tenondé é um apanhado de lendas que compõe a cosmogonia Tupi Guarani e explica através da mística dos grandes pajés a criação do universo e o surgimento da vida a partir de um pensamento bom de Tupã. O surgimento do primeiro ser humano e da relação deste com as dádivas da Terra Mãe (Pachammama) são abordados de modo em que podemos compreender a relação mais profunda entre homem e natureza e como essa relação pode ser determinante para o surgimento de uma nova civilização pautada nos ensinamentos de Tupã Tenondé.” – contou Sérgio.

“A expectativa em relação ao desfile é a melhor possível. Após um ano problemático e com um desfile que não foi finalizado dentro do tempo como gostaríamos, temos neste grande enredo a esperança de assim como nos ensinamentos de Tupã, renascer para uma nova era, uma nova fase na história do Carnaval Virtual é dos Gaviões Imperiais. Podem esperar um desfile muito bonito, muito bem amarrado e com um visual detalhado e muito caprichado. Será sem sombra de duvidas o maior desfile da história da agremiação e um belo momento da folia virtual em 2018.” – concluiu Leo Moreira.

Confira abaixo a sinopse do enredo da escola:

Enredo 2018: “TUPÃ TENONDÉ”

Sinopse:

Depois de fundir-se o espaço e amanhecer um novo tempo,
eu hei de fazer que circule a palavra-alma novamente
pelos ossos de quem se põe em pé,
e que voltem a encarnar-se as almas,
disse nosso Pai Primeiro.

Quando isso acontecer
Tupã renascerá no coração do estrangeiro;
e os primeiros adornados novamente
se erguerão na morada terrena por toda a sua extensão.

(Profecia da nação Guarani do clã Jaguakava)

INTRODUÇÃO

O Grêmio Recreativo Escola de Samba Virtual Gaviões Imperiais apresenta no Carnaval Virtual de 2018 o enredo “Tupã Tenondé”, baseado no livro homônimo de autoria de Kaká Werá Jacupé e trata da revelação dos ensinamentos secretos da tradição oral dos Tupi-Guarani. Mais do que um enredo, um grito de alerta ao homem, Tupã Tenondé é a manifestação da sabedoria oculta dos grandes sábios tamãi guardaram por gerações e hoje ressurgem como uma surpreendente lição de resgate aos valores do tríduo Homem, Terra Mãe e Universo, aos olhos do Grande Mistério Criador.

SINOPSE

Em meio a Vazia Noite iniciada, um sopro de inspiração em um pensamento bom, Nosso Pai Primeiro criou-se por si mesmo. Até então, nada existia. De si próprio, o “grande feiticeiro” iniciou seu desdobrar. Antes mesmo do Sol, grande bola de fogo se fixar no centro do firmamento, reluzia em meio a grande escuridão o brilho de seu próprio coração. Coruja,
Antes de existir a noite primeira, antes da consciência tomar conta do Universo, o sentimento bom, o “Amor”, o Uno, entoa sua voz com o vento, feito música. Primeira e última. Ao estremecer toda a extensão do vazio inicial com a voz do trovão, ganha forma como o fogo que aquece o Universo para então assentar-se ao trono divino. Começa então o espaço-tempo.
Rompendo a escuridão, o grande criador alça voo em meio ao grande vazio, na forma de uma suntuosa coruja. Com os olhos atentos, observa a todo o espaço em que irá manifestar a sua criação. Imagina o vazio como noite e os olhos como espelho de uma vida. Na simbologia, a coruja representa mistério e sabedoria. Com sua visão aguçada, pousa no galho mais alto da Árvore da Vida o observa tudo aquilo que está ao alcance de sua percepção.
Em um pensamento bom, o grande feiticeiro faz ouvir em todo o espaço-tempo os quatro cantos do movimento da criação. E rompendo o caos, sopram os ventos que revelam os ciclos da natureza. São os cantos expressos a partir de Tupã Tenondé: ara yma, o céu primeiro, o grande vazio. Triste e seco, o inverno original. De arapoty, brota a vida, nascem as flores celeste. Surge então arakuaracy-puku, aquela que deu à luz a claridade, que gerou o calor da vida e rompeu a escuridão dando origem ao grande dia. Por fim, ouve-se o canto de ara apyú ñemo-kandire, o espirito da renovação, os novos dias que se erguem e ressurgem de si mesmos.
Orgulhoso de sua criação, o grande feiticeiro decide conhecer todo vasto espaço-tempo, sua altura e comprimento, resolve então voar sobre este novo e belo paraíso na forma de um Colibri. Pequeno e ágil ao bater as asas, tem a real percepção da totalidade a partir dos mundos sutis do espírito. É o mensageiro, o elo de ligação entre o divino e o mundano. É o pressagio das boas novas de Tupã. Feliz com tudo o que havia criado, retorna aos céus para dar forma ao pensamento e criar a vida neste paraíso.
Entretanto, pensou em voar ainda mais alto, pois fazia necessário reconhecer a totalidade de si, de sua criação. Transformou-se então em Macauã, o Gavião Real. E com Macauã, voou ainda mais longe e do mais alto dos céus, contemplou a totalidade de si. Assim, resolveu que era chegado o momento de “criar mundos”. Foi então que ele cantou, e do seu canto nasceram as estrelas. De seu pensamento, nasce Pachamama, a “Mãe Terra”. Com ela, tem origem os quatro pilares de sustentação da Terra: o “Nascente”, o “Poente”, o “Sul” e o “Norte”. As Moradas Sagradas (Amba), são marcadas por cinco palmeiras azuis que se erguem nas quatro direções cardeais e ao centro. Do canto de Macauã, nasce o espírito da futura Mãe-Terra que vaga pelo infinito até ganhar a forma de uma serpente luminosa. Ao escolher o local ideal para adormecer. Se aconchegou, enrodilhou e dormiu, transformando-se em um imenso jabuti. Tupã, olhando para o casco da grande tartaruga, desenhou rios, mares, cachoeiras, vales e montanhas.
Ao ver a real dimensão de sua Criação, Tupã achou por bem que alguém continuasse o seu trabalho. Então, de seu próprio coração, criou nosso ancestral primordial, Nhanderovussu, o primeiro ser humano. O espírito-sopro, a vida-luz, que é a essência do ser, desdobrou-se em três: ayvu (espírito), ñe’eng (alma) e tu (corpo). O ser humano é então compreendido como “alma-palavra”, o que se expressa por meio da linguagem e do pensamento.
Em sua ingenuidade, Nhanderovussu não foi capaz de seguir com a missão que lhe foi entregue por Tupã. Retornou ao Pai Primeiro e este o mandou ao encontro dos Nhendejeras (guias) nas quatro direções. Em cada uma das grandes palmeiras, foi instruído por diferentes entidades. Com Endovidju, aprendeu a viver na Terra, com uma Rocha, aprendeu em seu interior a viver como uma rocha, meditando e compreendendo a função do Nascente e do Poente, do início e do fim. Com Yarauetê, a onça ancestral, aguçou seus sentidos, sentiu a terra sob seus pés, sentiu o aroma e o perfume das flores, o frescor dos ventos e o calor do Sol. Pode ver toda a beleza da Lua e contemplar as estrelas. Sentiu o gosto do mel e o sabor de uma infinidade de frutos. Por fim, foi ao encontro do Espírito da Terra que se fez luz e manifestou-se a ele para dar forma a sua aura. Do barro lhe criou um corpo físico, com o qual pode pela primeira vez, andar sobre seus próprios pés.
Agora, Nhanderovussu entendeu como esta Terra era bela. Como a criação de Tupã era magnífica. Em um instante, olhou para o céu azul e disse “arara”. Assim nasceu a primeira Árara, o primeiro pássaro azul. Ficou espantado e disse “araraí”, nasce então uma arara pequena. “Arararuna”, nasce a arara vermelha. Seguiu então dizendo tudo aquilo que lhe vinha a mente: “tucano”, “mainu”, “mainuí”, “araponga”. De sua boca nasceram muitos pássaros.
Prosseguiu: “pirarucu”, “tambaqui”, “guarú” e nasceram muitos peixes. Olhou para o chão e disse: “djacaré”, “panambi”, “paca”, “tatu”, “cotia” e assim foi povoando a Terra. Após árduo trabalho, retornou ao Espírito da Terra afim de lhe devolver o corpo físico que este lhe havia emprestado. Ao que prontamente o Espírito da Terra negou-se a receber o corpo de volta, dando-o como presente a Nhanderovussu, este seguiu pelo mundo aperfeiçoando toda a criação e aprendendo com a terra, tudo aquilo que ela poderia lhe ensinar.
Um dia, cansado e sentindo que a hora de partir havia chegado, resolveu entregar seu corpo físico e retornar ao Pai Criador. Assim o fez. Em forma de espírito retornou até Tupã e contemplou pela ótica do Grande Pajé toda a sua criação. Satisfeito, enfim descansou. E adormeceu pela primeira vez desde que iniciou sua jornada. Após muito tempo adormecido, acordou com profundo desconforto. Foi então observar sua criação uma vez mais. Ficou estarrecido. Viu a humanidade mergulhada em profundo caos. Não mais o caos inicial, do vazio-primeiro, mas sim o caos dos homens. Contemplou a morte. Ficou triste e chorou.
Retornou a Tupã e lamentou que tudo aquilo que ele criou expira em um final. Tupã, sábio em sua plenitude lhe disse: “morte é vida. A morte não é o final, mas sim, o início de um novo ser”. Assimilou então essas palavras e pode compreender que no ressurgimento da vida, não mais no paraíso dos homens, mas no paraíso celeste, que havia então originado um novo ser. Assim, Anhanderovussu decidiu uma vez mais encarnar seu corpo físico e voltar à Terra. Dessa vez, não para criar, mas para transmitir seu conhecimento através da palavra. E dessa forma, a palavra-alma, essência da criação do ser humano volta a ter fundamental sentido em meio a vida do povo de Tupã.
Os ensinamentos são passados na tradição oral de geração em geração, perpetuando os preceitos da Criação. As “palavras formosas” chamadas pelos antigos de ñe’e porã tenondé, abrem os caminhos para os valorosos jovens que almejam um dia tornar-se pajés e assim, transformassem em os guardiões da tradição Tupi.
A’e ramo katu, kvypo amboae
Kuéry tupã ramo oó va’erã;
Ekovia, jaguakava tenondé yvy
Rupa jave i re opu’ã va’erã

Quando isso acontecer, Tupã renascerá no coração do estrangeiro; e os primeiros adornados novamente se erguerão na morada terrena por toda a sua extensão.

Autor: Sérgio Júnior

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