A mulher do fim do mundo. Unidos de Vila Betânia apresenta seu enredo, confira!

Estreando na LIESV, a Unidos de Vila Betânia irá falar de grande artista Elza Soares. Segundo seu presidente, João Paulo, a escola inicia o enredo falando do subúrbio de onde ela veio, um lugar de muita pobreza onde passou muitas dificuldades, passando pelos seus sonhos e finalizando contando sua trajetória musical de grande sucesso.

Confira a sinopse abaixo:

 

 

Enredo 2018: “Elza Soares: Do Planeta Fome à Mulher do fim do Mundo!”

Sinopse:

“(…) É um navio humano quente, negreiro do mangue
É um navio humano quente, guerreiro do mangue”
É meus amigos!
Este trecho da canção “Corações do Mar” diz muito sobre o lugar de onde venho.
Uma vez indagada ironicamente de que planeta eu havia vindo, não exitei em responder:
– Do Planeta Fome!
Favela, subúrbio!
Lugar onde impera a pobreza, onde a cada dia seu povo tem de resistir, lutar, lutar e vencer. Ser um grande guerreiro vencedor de batalhas, pois a cada dia enfrenta uma diferente.
E oque seria vencer uma batalha para essas pessoas? Devem estar a se perguntar.
Eu vos digo que vencer uma batalha para eles é sobreviver em meio a violência, é alimentar-se, é manter-se com saúde, educar os filhos, garantir um futuro melhor diante do caos e desprezo do poder público.
Foi neste lugar que nasci, passei minha infância, brinquei, carreguei lata d’agua na cabeça, me fiz forte e me impus. Ali! Onde impera tanta dificuldade, impera também a alegria de um povo que mesmo sofrido consegue trazer no rosto o sorriso de quem sabe amar e que está sempre disposto a ajudar.
A vida não foi nada fácil para mim. Tive de me casar muito jovem e também muito jovem tive de lidar com a pior das dores que alguém pode carregar que é a perda de um filho. Passei por isso mais de uma vez durante minha caminhada. Filhos que perderam a vida e até uma filha que me foi tirada.
Tive de conviver submissa a meu marido numa época que a mulher não tinha seus direitos conquistados, fiquei viúva jovem, com 5 filhos para criar. Não esmoreci e trabalhei duro para sustenta-los.
Diante de tudo o que se passou em minha vida, jamais deixei meu imenso amor pela canção de lado, me inscrevia em todos os concursos que podia, enviava letras escritas por mim para as rádios, sempre lutando pelo sonho de me tornar cantora.
Consegui!
Tornei-me aquilo que sonhei ser, pude usar minha voz para dar prazer, alegria, conforto e até alento às pessoas através das canções que interpretava.
Foi já como cantora que me apaixonei por ele, aquele homem de pernas tortas, que fazia a alegria dos torcedores ao balançar as redes do time que pertencia. Esta paixão também me fez ver ainda mais algo que o ser humano teima em carregar dentro de si, o Preconceito!
Fui taxada de amante, destruidora de lares, difamada, julgada, sofri ataques na rua. Tudo por escolher viver um amor.
Ah o Amor!
Este me fez sofrer ainda mais. Meu marido, grande amor, ídolo de um país, fora dos gramados era portador do alcoolismo e quem sofria as consequências era eu. Fui agredida fisicamente e humilhada por ele, sofri calada. Até que não aguentei mais e me separei. Isso me lembra de uma canção feita para você que passa o mesmo que passei…
“(…) Mão, cheia de dedo
Dedo cheio de unha suja
E pra cima de mim? Pra cima de moi?Jamé,
Mané!
Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim”
Minha vida é digna de um filme daqueles bem dramáticos, passei por muita coisa e deve ser por isso que sinto aqui dentro de mim, que minha missão é a de defender aqueles que sofrem. Seja pelo desprezo da sociedade, pelo preconceito ou mesmo por serem considerados mais frágeis.
Sinto que devo lutar por pessoas que são julgadas e condenadas por amar, isso tudo apenas por não seguirem um modelo tradicional de formar uma família. Tradicional?! Isso me soa tão careta em pleno século XXI!
Estarei sempre junto com os homossexuais na luta por algo que me parece ser tão estúpido de se lutar, que é o direito de Amar das mais diferentes formas!
Nasci mulher, senti na carne a forma de ser tratada como um ser frágil. Frágil?!
Jamais! Somos guerreiras, guardiãs de nossas famílias, trabalhadoras, companheiras, o alicerce de cada família que nos possui em seu âmbito. Ser mulher é ser forte, é dar luz, é amar, administrar, abdicar muitas vezes para garantir o melhor para sua família.
Como alguém ainda pode achar que a mulher é frágil, tendo tanta força dentro de si?
Mulheres podem sempre contar com meu apoio!
Além de mulher também nasci negra, tenho em minhas veias o sangue africano, sangue forte, guerreiro e lutador, que ergueu este país sendo retirado à força de suas terras e escravizado. Alguns dizem que somos inferiores. Inferiores?!
Somos filhos do Continente Mãe, resistimos às mais diversas formas de humilhação, maus tratos, sofrimento. Estamos entranhados no DNA do povo brasileiro, fomos e continuamos resistentes e de pé. Apesar de tudo ainda sofremos o preconceito de uma parte da sociedade.
Isso me faz lembrar o trecho de mais uma canção…
“(…) Que vai de graça pro presídio
E para debaixo do plástico
Que vai de graça pro subemprego
E pros hospitais psiquiátricos
A carne mais barata do mercado é a carne negra (…)”
Estarei sempre na luta para sermos tratados em forma de igualdade!
Nossa! Que longa caminhada cheia de obstáculos, obstáculos estes que jamais me fizeram desistir dos meus sonhos. Fui considerada a cantora do milênio e hoje continuo a cantar e continuarei até o meu último suspiro porque uma coisa vos digo: “My name is now!”
Quero brinca o carnaval, defender minha Mocidade, esperando sempre ver a Estrela guia Brilhar no lugar mais alto!
Me chamo Elza Soares, guardem para sempre este nome, porque…
(…) Mulher do fim do mundo
Eu sou e vou até o fim cantar (…)”

 

Autor: Delson dos Santos
Pesquisa: Nathallia Milanez

Unidos de Vila Betânia não realizará concurso de samba enredo, fará encomenda.

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